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Marla de Queiroz



Sinto os olhos embaçados de sono, um cansaço que não para de crescer, mas reluto no desembaraçar deste emaranhado de palavras carregadas de falta de assunto. Como seria bom poder abandoná-las espargidas em seu repouso, descansadas de minhas vãs tentativas, inativas. Eu só queria uma imagem, um lugar destes que quando construímos juntas, eu possa ir e ficar um pouco antes do derramamento do corpo no colo do sonho. Eu só queria um jeito menos tosco de dizer “boa noite, meu amor, eu te amo para sempre, hoje”. E a pessoa se sentir amada esta noite. Para sempre hoje. Eu queria também que elas, as palavras, me dessem argumentos irrefutáveis que trouxessem as pessoas para perto da minha boca e eu pudesse sussurrar em seus ouvidos: “eu prometo que amanhã vai ser um dia tão feliz. E depois de amanhã também. E todos os dias da tua vida”. Eu queria dizer isso com palavras. Mas com palavras lindas, dessas que os poetas juntam e ficam tão amarradinhas que, paradoxalmente, parecem preparadas para o voo. Mas meus olhos estão embaçados de sono, meu cansaço não para de crescer e “eu te amo meu amor para sempre hoje e prometo que amanhã e todos os dias da sua vida tudo vai ser tão feliz muito mais feliz que esta minha tentativa de dizer”.

Marla de Queiroz

Marla de Queiroz


Meu Deus, que tamanha fome de vida. Como se os instantes me atravessassem com violência e acelerassem o peito. E, com o coração sempre na boca, eu tivesse que fazer um acordo com a delicadeza: que no impulso de ranger os dentes, eu não triturasse o meu coração. Que, mesmo com esse apetite imenso e vontade de engolir o Mundo, eu apenas deixasse ele se debruçar sobre mim para abraçá-lo e não o apertar até nos sufocar com toda força da minha intensidade. E tem sido essa labuta diária (sobre) viver o que sinto, o que sou: deixar que a borboleta pouse em meu rosto, sem esmagar as suas asas... Para não assustá-la, Meu Deus. Para não espantá-la sendo o que estou.

Marla de Queiroz

Marla de Queiroz


Sigo pelos caminhos que a vida teceu: com todas as mudanças bruscas, algumas coisas sobreviveram, mas algo em mim morreu.
Levo o amor por tudo, sempre. 
Uma esperança entusiasmada. 
A gratidão que me acompanha.
E um desajeito de dizer adeus.

Marla de Queiroz

Marla de Queiroz


Na simplicidade do amor, o "eu te amo" dito com todas as palavras de cara lavada. E o que é sentido já bastando por ser sentimento. E o corpo chama, a mente aceita, o coração estabelece.E um sossego no peito que não é comodismo, mas confiança. E uma crença no futuro que não é ansiedade, mas o fruto do presente. 
Na simplicidade do amor, o Tempo planeja cada segundo de preenchimento do que está ausente.

Marla de Queiroz

Marla de Queiroz

Eu me recuso a amputar meus sentimentos. Eu nasci para sentir com todos os meus membros.

Marla de Queiroz



Marla de Queiroz


Eu não consigo mais acomodar você dentro de mim depois da pasmaceira de tempo perdido, de jogo barato, de sedução cheia de recato. A mesma atitude de todos eles, todos os que eu não quis porque provavelmente não iam me querer por muito tempo. Não fiquei com raiva porque eu não tenho espaço o suficiente aqui dentro para ter raiva de muitas coisas e, naquele momento, eu tava com irritada com algo que segurou meu foco. Mas eu senti uma preguiça profunda quando te vi ali, plantado embaixo da minha janela fazendo pose de ciumento arrependido. Fazendo cara de marido ressentido. Vítima tirana da minha democracia: “vamos decidir juntos o que a gente vai fazer nesta tarde vazia? Desta vida vadia? Desta cara emburrada? Deste jeito escroto de querer que eu seja exatamente o contrário daquilo que te atraiu no início?”.


Eu não consigo mais acomodar você dentro de mim porque eu fiquei bem cansada da tua autopiedade. Desta falta de dignidade. Da necessidade de seduzir pra me distrair e se autoafirmar. Sua mania de tentar despertar emoções e tentar tirar tudo do seu indevido lugar.

E por não conseguir mais te acomodar aqui dentro de mim, eu te peço:
Por favor, deixa em paz o meu caos.

Marla de Queiroz


Porque era para ser tão simples: e tudo viria ao encontro depois de andarmos o caminho justo. Mas a inabilidade afetiva foi deixando a grama virar mato, a ponte ruir, o asfalto afundar, as estradas cobrirem-se de ervas daninhas. Nossos passos desviando dos insetos até não poderem mais seguir. E ficamos a um palmo um do Outro. A um quarto de hora de uma vida toda. A um olhar arrependido. Nós nos víamos e as mãos não alcançavam mais. O pequeno abismo ainda era maior que nossas pernas. Fomos lentos em nossa saudade:
A vontade procrastinou até que, no último minuto, era tarde.

Marla de Queiroz

Uma profusão de contrastes: as paredes de concreto e o mundo se diluindo lá fora. E estamos distantes, mas nunca estivemos tão próximos como agora. Esfriei porque não suportava mais querer e não fazer parte, mas o seu retorno incluiu uma sucessão de tentativas e descartou a possibilidade de desistências. Você guardou seu abraço quente e macio para quando houvesse uma brecha da minha pele e uma concessão do meu corpo. Você se preparou para quando “estar pronto” incluísse uma probabilidade de estar junto. Daqui a pouco, vamos virar a esquina ao encontro, e nossas mãos serão dadas. E tentaremos contrariar aquela primeira estatística que nos inseria no patamar das escolhas afetivas erradas.

Que sejamos nossas boas notícias.

Marla de Queiroz




Esqueça essa brecha de sol que nos fez amantes. Havia uma tempestade à espreita e eu não sabia. Esqueça todos os anúncios de eternidade, resolvi abrir mão da saudade. Esqueça meus ombros nus, meus olhos molhados de saudade, esqueça o meu beijo. Esqueça essas mordomias emocionais de quando no amor há certezas. Tua tranquilidade em não resolver as pendências me inundou de tristeza. Esqueça meu abraço mais enroscado, meu jeito desesperado, e tuas poesias que joguei num mar sem fim. Escolhi te dizer não, de tanta incompetência que houve no sim. E quando estive contigo, na hora mais inquieta dos aeroportos, é porque eu precisava te olhar nos olhos, fundamente. Eu me despedia de tudo e nem você sabia.

Essa história linda que escrevemos com minúcias no avesso das tardes, esqueça. Desestruturou-se inteira quando olhei de perto e tentei pontuar frase a frase.

Marla de Queiroz



Passou o dia pensativa juntando coragem na saliva até encorpar a voz.
Aproveitou o ápice da sua agonia e, num impulso, disse tudo numa sensação só:

“A partir de hoje, não sou mais tua mulher, decidi gostar de outro”.

No início ele riu da ousadia, mas o silêncio que ela fez em seguida preencheu
de sinceridade aquela novidade.

“Você ficou maluca, de onde tirou isso?”

“ É que você nunca gostou de mim no grosso mesmo do sentimento: sempre foi essa coisinha aguada e mal-cuidada, água parada esperando doenças...”

“ Mas ninguém decide que vai gostar de outro de repente e, simplesmente, começa a gostar!”

“ Ah, mas eu decidi. Ele vai realizar um sonho que tenho comigo desde menina:
ele disse que vai gostar de mim bem do jeitinho que eu gosto de você...
A diferença, é que eu sei merecer essas coisas...”

Marla de Queiroz

Fomos fonte depois fomes e declínio. 
Fomos fortes depois fracos e distantes. 
Fomos brasa depois brigas: ascensão do breu.
Fomos indo para longe de nós mesmos. 
Fomos findos, fomos luz que não ascendeu.

Marla de Queiroz


 Eu vou morar em você...
_ Em mim? Mas essa casa precisa de tantas reformas!
_ Mas enquanto você dormia eu fiz um “puxadinho” aí dentro!
_ E a gente vai viver de quê?
_ De arredondar palavras...

( Mais tarde, deitada em cima das costas dele):

_ O que você está fazendo aí em cima ???
_ Estou tomando sol na laje!

Marla de Queiroz






Eu me torno emocionalmente saudável quando consigo desconstruir todas as tolices sobre amores salva-vidas e jogar a ideia surreal do príncipe encantado no lixo. Eu me torno emocionalmente saudável quando acredito que namorar deve ser leve mesmo quando intenso, e divertido mesmo quando há um sério comprometimento. Eu me torno emocionalmente saudável quando o que me ocupa é a minha vida e não a reação que tenho ao comportamento alheio. Eu me torno emocionalmente saudável quando percebo que determinada história não me abrange, me deixa inadequada, fere a minha autoestima e sinto que isto é o suficiente para eu tentar ser feliz e me abrir para outras possibilidades. Eu me torno emocionalmente saudável quando escolho os meus parceiros pelo que me agregam de luz e crescimento, não pelo desafio que me trazem quando se mostram emocionalmente indisponíveis ou abertos para viverem outras relações que não a nossa. Eu me torno emocionalmente saudável quando me permito ficar sozinha até atrair um alguém que esteja disposto a trocar, desbravar paisagens juntos, que esteja inteiro no lugar que escolheu. Eu me torno emocionalmente saudável quando, estar ou não estar com alguém sexo-afetivamente, não se torna a prioridade da minha vida, mas somente um dos meus desejos. Eu me torno emocionalmente saudável quando aprendo a dar nome aos meus sentimentos: e não confundo posse com excitação, dependência com paixão, rejeição com confusão alheia...

Eu me torno emocionalmente saudável quando dou amor, não carência.

Livrai-me do que desbota a minha lucidez e da alienação de achar que a felicidade está no Outro e não em mim. Que seja assim.

Marla de Queiroz



Do que pôde ser visto, do que pôde ser tocado, do que pôde ser sentido, do que foi vivenciado, disto é feito a eternidade diária, a felicidade transitória, a tristeza passageira, o agora. Mesmo quando o dia findo, a noite ida, a madrugada vindo, um recomeçar à espreita que, no fundo, é só continuação. A narrativa pode ser refeita mesmo quando as palavras não. Troque a disposição das tuas frases, descubra o sinônimo mais adequado, ponha força no pensamento que te representa e beneficia... Experimente com inteireza cada estação do ano até que se possa estar cada vez mais presente em cada estação do dia.

Seja tão você até que ser tão feliz seja uma coisa só.

Marla de Queiroz



Sentir-se inadequado não é desconfortável por uma necessidade de adequar-se. Sentir-se inadequado pode vir exatamente de uma adequação forçada a um sistema, ambiente ou relação que não nos compõe. A minha sensação de inadequação só ocorre quando me perco de mim mesma, ainda que eu esteja no contrafluxo das convenções. Não é a habilidade de lidar com o Outro que me ampara dos conflitos. É a minha habilidade de lidar comigo em relação ao Outro que me faz mais tolerante, amorosa e compreensiva. Poder estar quem estou é o que me prepara para aceitar a vida como ela se apresenta. Então eu me movimento suave dentro da diversidade, pois reconheço a minha diferença e aprendo a respeitar a do Outro. A minha sensação de adequação vem também do estar inteira nas minhas inabilidades e trabalhá-las, simplesmente, por reconhecê-las.

Marla de Queiroz



O perigo da perversidade é que ela é muito sutil. Um ser perverso jamais te atacará diretamente. Ele vai saborear cada silêncio calculado para despertar sua agonia. Ele vai tentar tolher seus lugares íntimos até que não reste qualquer espaço para manobras. Ele vai te seduzir da maneira mais irresistível e depois te tratar com um descaso inexplicável, como se algo de errado tivesse acontecido, mas sem te dar quaisquer indícios do que possa ter acontecido. Ele será carismático com os outros, prestativo, mas demonstrará impaciência em responder à sua mais simples pergunta. Ele vai oscilar entre o tesão e a indiferença. Você se sentirá desejada quando o sufoco tiver tomado toda a sua alma e, totalmente desamparada quando o desejo demonstrado parecer esvaído nos primeiros suspiros da manhã. E o dia seguinte se tornará um longo e agonizante ano. Ele parecerá espirituoso, depois irônico, mas estará sendo absurdamente crítico e sarcástico. E te deixará tão confusa que você, por momentos, não saberá identificar a crueldade que há neste tipo de comportamento. Os perversos são viciados em jogos de poder e controle. Não sabem o porquê. Simplesmente precisam tentar te destituir da sua autoconfiança e autoestima até que você se torne refém, dependente, à beira do desespero.
É muito difícil identificar um ser perverso e, depois se livrar dele. Ele te tratará com uma bipolaridade emocional absoluta. E quando tudo parecer perdido, quando você tiver decidido de maneira explícita sua escolha por um afastamento ou desligamento da relação, ele te rondará da maneira mais amorosa possível tentando te convencer que a falta de sintonia anterior era um problema seu.
O perigo da perversidade é porque ela é muito sutil. E o único antídoto para se curar de uma relação doentia como esta é reunir toda a coragem que você jamais imaginou ter e partir com toda a convicção de que você não precisa continuar neste campo minado. Você pode escolher um lugar de paz. Você pode não ser presa de um predador voraz. Você não precisa se vestir de sangue para alimentar estes vampiros.
Esteja atenta. O perverso sempre parecerá um ser inofensivo e carismático. Com os outros. Apenas com os outros. E isto te deixará com uma imensa vontade de conquistar aquilo que ele fará questão de demonstrar que não está disponível para você.

Marla de Queiroz



É por uma verdade íntima que eu te amo, Estranho.
Porque não há como desobedecer ao amor.
Portanto, eu te amo na penumbra,
Soterrando o sentimento com explicações diversas.
E, a cada dia em que me calo, disfarço e me desfaço
Do que há pulsando vivo aqui.
Mas confranjo o meu coração
Porque estreito o peito.

É de uma verdade crua esse meu amor, Estranho.
E escondo tua existência atrás dos pensamentos
Que para te ter perto
Me atiram longe.

Congelo em silêncio tua imagem,
Mas minimizo rápido o teu sorriso-tela
Como quem mancha os dedos
Na tinta fresca do desejo
E, por medo de uma possível rejeição,
Desfigura toda a aquarela.

Marla de Queiroz

SOBRE A FELICIDADE

Caro Leitor,

Eu tenho sentido a felicidade da forma como eu nunca havia idealizado. Percebo que após tantas perdas, havia me tornado pouco exigente com algumas coisas. E a vida, sábia, não querendo que a minha fé diminuísse me deu coisas tão maiores e melhores do que eu esperava. Leitor, eu descobri algo muito difícil de compreender: a felicidade não tira o medo nem a melancolia de ninguém. O medo é uma necessidade de autopreservação e a melancolia pode ser a coisa que mais desenhe lirismo num olhar. Descobri que a felicidade é um estado de espírito e me incomodou a descoberta. Deveria ser confortador, mas isto me dá uma responsabilidade grande demais. Porque eu pensava que seria feliz quando tivesse um grande amor, um bom emprego, ótimos amigos (sempre os tive) e a espiritualidade encaminhada. E hoje eu tenho tudo e, ainda assim, às vezes me vejo melancólica. E nada me impede de acordar de mau-humor ou solitária demais. Porque eu perdi a possibilidade de ter sempre um réu, algo que me tirasse o peso da responsabilidade. Leitor, também descobri que a plenitude dos monges é possível para nós mortais! Isso me apavorou um pouco, porque busquei demais na meditação e encontrei a plenitude na correria do dia-a-dia, no trabalho, no corpo de um poema. Leitor, a felicidade também não nos tira os pesadelos nem planta um sorriso eterno no nosso rosto. Ela vem na superação de um desafio, em forma de alívio. Mesmo estando muito feliz é possível acordar muito assustado. Eu imaginava a felicidade como uma magia que tomasse conta dos meus dias, meio a minha revelia. Mas ela não se move, ela respeita meu livre arbítrio e a minha vontade de me sentir infeliz apesar de. O que me deixou mais aflita, leitor, foi descobrir que a felicidade nem se perde. Ela está à disposição de qualquer um que queira vibrar neste estado. A gente é que se afasta dela. Se a gente se apega ao sofrimento, às sobras, às incompletudes e às reclamações, como é possível simplesmente estar feliz e agradecer? Acho que ser feliz dá muito trabalho porque você tem que se desvencilhar da tristeza. E o abandono produz ótimas reflexões, o relacionamento falido produz mais metáforas, a falta de algo importante dá uma sensação de que injusta é a vida e que você é só vítima de um destino que não está te ajudando a ser feliz. Mas quando tudo lhe é dado assim, como um mar que se oferece pro seu mergulho, ou uma chuva que poderia fertilizar tua alma, se é o sol que faz falta, ou a sombra que te acolherá, que sentido tem a felicidade se oferecer pra mudar o teu rumo, teu humor, teus assuntos? A felicidade deixa a gente sem assunto. A felicidade é muito mais interessante quando ela é difícil de obter. Leitor, perceber que a distância entre qualquer um e a felicidade é uma quilometragem inventada me deixou pasma. Porque se ela sempre esteve ali, por que só consegui senti-la profundamente agora? Porque eu precisava entender que nada me faltava, eu sempre tive o suficiente de acordo com as minhas escolhas. Hoje, o que tenho é fruto da mesma coisa. Leitor, a felicidade talvez seja só uma escolha... e isso nos compromete demais.




Marla de Queiroz



Dores que não cabem em sacolas, alegrias que não se vão com as malas, desligamentos que, sobrecarregam a memória e, enfim a nova rotina se instala: o desconhecido personificado e a impressão de que acontecerá tudo, absolutamente tudo que não estava planejado. 

Então eu descobri, ao me aventurar no eterno desbravamento de paisagens internas e externas que, muitos becos se parecem sem saída, mas o que lhes falta é apenas uma placa indicativa.

Sigo, então.

Marla de Queiroz



Algum vento. E um punhado de folhas indo e vindo, palavras que secam na saliva, lágrimas que escorrem assimetricamente, gargalhadas projetadas para o céu conversando com esboços de nuvens. Algum vento. E a lua cheia de si convida as pessoas pra rua. Areia, mar aberto, ondas em rebento, rocha lisa acariciada pela brisa. Algum vento. E nenhuma esperança corrompida, céu aceso, becos com saída, túneis dispensados de seus breus. Algum vento. Sopram-me notícias de tua chegada, mão estendida, olhar extremoso, abraço pra sempre, o beijo gostoso: e quem te dará a mão sou eu.

Marla de Queiroz